NBR 5419 2026: o que muda no SPDA e o que fazer agora

NBR 5419 2026: o que muda no SPDA e o que fazer agora

A NBR 5419 2026 já é a norma vigente desde março. Veja o que mudou no Ng, na análise de risco e no escopo do SPDA, e o que fazer com os projetos em carteira.

NEXO ENGENHARIA7 min

A ABNT publicou a nova edição da NBR 5419 em 10 de março de 2026. Ela substitui a edição de 2015 e se aproxima da IEC 62305:2024. Para quem projeta, inspeciona ou responde tecnicamente por SPDA, a mudança relevante não está na redação: está na base de dados que alimenta a análise de risco e em dois parâmetros novos que entraram no cálculo.

Este texto trata do que mudou de fato, do que não mudou apesar do que se lê por aí, e do que fazer com projeto que foi concebido sob a edição anterior.

01O que mudou de fato

A estrutura em quatro partes foi mantida, o que preserva a familiaridade de quem já trabalhava com a edição anterior. O conteúdo, não.

TemaEdição 2015Edição 2026
TerminologiaClasse do SPDANível de proteção (NP)
Base do NgMapa da edição anteriorAnexo F normativo, valor por município
Origem do dadoSérie histórica anteriorSatélite LIS/TRMM (NASA) e rede BrasilDAT
Critério municipalLeitura do mapaMaior Ng observado no município, em valores pares
Análise de riscoGeometria, ocupação, tipo construtivo e NgAcrescenta frequência de danos (F) e fator de tipo de estrutura (rs)
EscopoNão contemplavaInclui fotovoltaico, recarga de veículos e telefonia móvel
Requisitos de DPSNo corpo da normaRemetidos à ABNT NBR IEC 61643
GlossárioPor parteLista única alfabética, repetida em todas as partes

02O Ng subiu, e em algumas capitais subiu muito

Ng é a densidade de descargas atmosféricas para o solo. Ele entra na análise de risco como medida de exposição da estrutura, e por isso puxa o resultado inteiro: necessidade de proteção, dimensionamento e nível exigido.

A edição 2026 recalculou essa base. O trabalho combinou o sensor LIS, a bordo do satélite TRMM da NASA, com série de 1998 a 2013, e a rede brasileira de detecção BrasilDAT, de 2018 a 2022. O LIS cobre bem o território e tem série longa, mas detecta toda descarga, inclusive as que ficam dentro da nuvem. O BrasilDAT entrou para estimar a fração que de fato chega ao solo.

CapitalNg da edição anteriorNg da edição 2026Variação
Salvador0,54+700%
São Paulo1120+82%
Belo Horizontedobroudobrou+100%
Vitóriadobroudobrou+100%

A faixa observada entre capitais vai de +75% a +700%. Os valores seguem a matéria do O Setor Elétrico sobre o novo mapa de Ng. Belo Horizonte e Vitória tiveram os valores dobrados, sem número absoluto divulgado na matéria.

A leitura prática é direta: memória de cálculo feita com a base antiga não pode ser reaproveitada sem verificação. Não porque todo projeto ficará mais crítico, mas porque não dá para saber sem refazer a conta.

03O efeito na ponta, caso a caso

A revisão trouxe exercícios comparativos que mostram o resultado prático. São os mesmos casos, recalculados pelas duas edições.

CasoPela edição 2015Pela edição 2026
ResidencialDPS classe I compatível com o nível IVDPS compatível com o nível II. Para atender à frequência de danos, DPS coordenados dimensionados para o nível I
ComercialSPDA compatível com o nível IIISPDA compatível com o nível II, mais DPS coordenados para o nível IV

O padrão se repete nos dois: o nível de proteção exigido sobe, e a proteção contra surtos deixa de ser acessório para virar parte da solução dimensionada. Isso tem efeito direto em orçamento de obra e em escopo de contrato já assinado.

A frequência de danos e o fator de estrutura

A frequência de danos (F) entrou como verificação complementar na análise de risco, voltada a eventos danosos em sistemas eletroeletrônicos, com distinção entre equipamento crítico e não crítico. Junto com ela entrou o fator relacionado ao tipo de estrutura (rs). São os dois parâmetros novos que mais alteram resultado quando a edificação tem eletrônica sensível: hospital, data center, agroindústria com automação, prédio corporativo.

NEXO ENGENHARIA · Engenharia em campo
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04O que a norma não mudou, apesar do que circula

Dois pontos costumam ser reportados errado.

Captores ESE continuam fora dos métodos aceitos. Sistemas não convencionais dimensionados por normas estrangeiras, como os captores do tipo Early Streamer Emission, permanecem fora dos métodos aceitos pela norma brasileira. Não houve criação de uso limitado nem de condição de aceitação. Quem receber proposta comercial baseada em captação supostamente ampliada deve pedir a demonstração normativa antes de qualquer coisa.

A medição isolada de resistência de aterramento continua não sendo obrigatória. Isso não é novidade de 2026, já valia antes. O dado segue útil, mas não substitui inspeção visual, verificação de continuidade e análise do arranjo instalado. Aprovar um SPDA apenas pelo valor em ohms mede um componente e declara o conjunto.

05E o prazo de transição?

Aqui vale honestidade técnica, porque circula muita informação sem lastro.

A ABNT não publica janela de protocolo. Quando uma nova edição entra, ela cancela e substitui a anterior. O prazo de carência, quando existe, costuma vir de quem fiscaliza, e não da ABNT: corpo de bombeiros do estado, prefeitura, concessionária, seguradora ou o próprio contrato. Esses prazos variam por jurisdição e por instrumento.

Circulam na internet menções a uma janela de 180 dias contada da publicação. Não localizamos essa janela em fonte oficial. A matéria técnica que noticiou a publicação da norma não menciona prazo de transição, data de entrada em vigor nem data de cancelamento da edição anterior. Enquanto isso não for confirmado no texto da própria norma ou junto ao órgão que fiscaliza a sua obra, o caminho seguro é tratar a edição 2026 como a referência vigente desde março.

Independente de prazo, um ponto é incontroverso: projeto, laudo e parecer devem declarar expressamente qual edição foi usada. Em sinistro, divergência contratual ou auditoria, essa é a primeira verificação.

06Fluxo de decisão: o que fazer com cada documento

Nem todo projeto ativo precisa de redesenho. Em boa parte dos casos a verificação confirma que a solução segue aderente. O ponto é verificar, não presumir.

Situação do documentoAçãoQuando
Projeto em elaboraçãoRecalcular com o Ng do Anexo F e verificar F e rsSempre
Projeto aprovado e protocoladoManterRefazer só se houver reforma, ampliação ou mudança de uso
Laudo de inspeção vigenteMantém o prazo originalMigrar na próxima inspeção periódica
Obra em execuçãoConfrontar o instalado com o projetoAntes do aceite
Parecer pericialDeclarar a edição utilizadaSempre

Em todos os casos, o fecho é o mesmo: declarar expressamente a edição da NBR 5419 utilizada e emitir ART quando houver revisão técnica.

A triagem, na prática

  1. 1
    Identifique a edição. Documento por documento, registre qual edição da NBR 5419 sustentou o cálculo. Sem esse inventário, não há priorização possível.
  2. 2
    Refaça a conta do Ng. Busque o valor do município no Anexo F e verifique se F e rs alteram o resultado. Comece pelas cidades que mais subiram.
  3. 3
    Revise o que tem eletrônica. Fotovoltaico, recarga de veículos e telefonia móvel entraram no escopo. Confira MPS, DPS, equipotencialização e aterramento.
  4. 4
    Atualize e emita ART. Laudo, memorial e desenho com referência expressa à edição 2026, e ART correspondente quando houver revisão técnica.
NEXO ENGENHARIA · Engenharia em campo
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Perguntas frequentes

Pergunta: Quais são as principais diferenças entre a NBR 5419:2015 e a NBR 5419:2026 na análise de risco para SPDA?

Resposta: A edição 2026 inclui novos parâmetros como frequência de danos (F) e fator de estrutura (rs), utiliza dados atualizados de densidade de descargas (Ng) por município via Anexo F e incorpora no escopo sistemas fotovoltaicos, recarga de veículos elétricos e telefonia móvel, elementos não considerados em 2015.

Pergunta: Como a atualização do parâmetro Ng impacta os projetos já existentes?

Resposta: O Ng de 2026 foi recalculado com sensores satelitais e rede BrasilDAT, geralmente resultando em aumento do valor em muitos municípios, o que pode elevar o nível de proteção exigido e requerer reavaliação dos projetos para evitar subdimensionamento do SPDA.

Pergunta: É obrigatório redesenhar todos os projetos antigos com base na nova norma?

Resposta: Não. Projetos em carteira devem ser triados, verificando a edição da norma usada, confrontando o Ng municipal atualizado e os novos parâmetros F e rs, para decidir se a solução original ainda atende ou exige atualização técnica.

Pergunta: Os sistemas de captação do tipo Early Streamer Emission (ESE) são aceitos na NBR 5419:2026?

Resposta: Não. Os captores ESE continuam excluídos dos métodos aceitos pela norma brasileira, sem previsão de uso autorizado, conforme o texto vigente da NBR 5419:2026.

Pergunta: A medição isolada da resistência de aterramento substitui a inspeção visual e análise do sistema de aterramento?

Resposta: Não. Embora útil, a medição de resistência não substitui inspeção visual nem análise do arranjo completo, pois aprovação do SPDA não pode ser baseada apenas em valor em ohms.

Pergunta: Existe um prazo oficial de transição para adotar a NBR 5419:2026 nos projetos e obras?

Resposta: Não há prazo oficial na ABNT. A norma 2026 substitui a anterior imediata e o prazo depende de órgãos fiscalizadores locais ou contratos, sendo recomendável consultar diretamente quem aprova a obra para definição do prazo aplicável.

Vladimir França

Escrito por

Vladimir França

Sócio-Diretor de Engenharia

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Publicado em 28 de setembro de 2026

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