Quais os maiores defeitos em sistemas de SPDA?

Quais os maiores defeitos em sistemas de SPDA?

Captor radioativo, conexão corroída, descida rompida, DPS ausente. Os defeitos que mais aparecem no SPDA de condomínios e quais só o ensaio encontra.

NEXO ENGENHARIA12 min

Do chão, o para-raios do condomínio parece perfeito: o captor está no alto e o cabo desce pela fachada. O defeito que importa costuma estar onde ninguém olha, numa emenda oxidada ou numa conexão enterrada que perdeu a continuidade. Este guia mostra os defeitos que mais aparecem, por que surgem e quais só o ensaio encontra.

Para o síndico e para a administradora, o sistema de proteção contra descargas atmosféricas, o SPDA, é um item de difícil acompanhamento. Ele não consome energia, não aparece na conta, não gera chamado de morador e não dá nenhum sinal quando deixa de funcionar. Um cabo de descida furtado, uma conexão corroída pela chuva ou uma antena instalada depois do projeto não mudam nada na rotina do prédio. A falha só se revela no dia do raio, e aí ela vira incêndio, dano à estrutura ou equipamento queimado. Este artigo reúne os defeitos que as fontes técnicas mais citam, organizados pelas partes do sistema, e explica como cada um pode ser descoberto antes da temporada de chuva.

01Por que um SPDA instalado pode não proteger?

O SPDA funciona como uma corrente com quatro elos. A captação, formada pelos captores e pela malha na cobertura, recebe a descarga. As descidas levam a corrente pela fachada ou pela estrutura até o chão. O aterramento dispersa essa corrente no solo. E a equipotencialização liga as partes metálicas do prédio, como tubulações, estruturas e reservatórios, para que não surja diferença de potencial perigosa entre elas. Se um único elo falha, a corrente do raio procura outro caminho, e esse caminho pode ser a alvenaria, a tubulação de gás ou a fiação dos apartamentos.

O risco é real e é medido. Pelo anuário de 2026 da Abracopel, associação que acompanha acidentes de origem elétrica no país, o Brasil teve 101 ocorrências por descarga atmosférica em 2025, com 19 mortes. No total de acidentes elétricos, foram 2.322 ocorrências e 725 mortes no ano, segundo os dados divulgados em fevereiro.

A referência técnica é a ABNT NBR 5419, cuja nova edição foi publicada em 10 de março de 2026, alinhada à norma internacional IEC 62305. Um aviso antes da lista: não existe levantamento público brasileiro que diga com que frequência cada defeito aparece. A ordem a seguir segue a estrutura do sistema, da cobertura ao solo, e reúne os problemas que engenheiros e inspetores mais descrevem em publicações técnicas.

02Quais defeitos aparecem na captação, no alto do prédio?

1. Captor radioativo ainda instalado

Entre 1970 e 1989, o Brasil fabricou cerca de 75 mil para-raios radioativos, com fontes de amerício-241, segundo estimativa da CNEN citada por pesquisadores do IPEN e em trabalho apresentado no INAC 2021. A Resolução CNEN nº 4, de 19 de abril de 1989, suspendeu o uso desse material e registrou que a maior eficácia desses captores não estava tecnicamente comprovada. O ponto que interessa ao condomínio é que a CNEN não obrigou a retirada do que já estava instalado. O IPEN estimou um recolhimento de 1 a 2 mil unidades por ano, ritmo que levaria cerca de quatro décadas para esgotar o estoque. Prédio residencial construído antes de 1990 merece uma olhada no captor. A retirada é feita por empresa habilitada, e o material é entregue à CNEN pelo serviço de recebimento do CDTN.

Captor no alto da edificação. Os modelos radioativos foram fabricados no Brasil até 1989. Foto: Kakoula10, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

2. Captor ionizante que promete raio de proteção maior

Os captores de emissão antecipada, chamados de ionizantes, prometem cobrir uma área maior que um captor comum. A norma brasileira não reconhece esse ganho. Como resumiu o engenheiro Hélio Sueta à revista O Setor Elétrico, ao comentar a edição de 2015, a norma "não proíbe, mas não permite" o uso. Na prática, o defeito aparece quando o projeto confiou nesse raio ampliado e deixou partes da cobertura sem captação real.

Captor em cobertura. O ganho de área prometido pelos modelos ionizantes não é reconhecido pela norma brasileira. Foto: Pavel Tomashev, CC0, via Wikimedia Commons.

3. Equipamento novo fora da zona protegida

Antenas, mastros, condensadoras de ar-condicionado e outras estruturas instaladas depois do projeto podem ficar fora do volume que a captação protege. É uma falha comum em condomínios, porque cada obra no telhado é contratada separadamente e ninguém refaz a verificação de cobertura. A captação insuficiente fora do volume protegido aparece entre as não conformidades de laudo listadas pela Token Engenharia.

Antenas e condensadoras somadas ao telhado depois do projeto do SPDA. Foto: Safwan C K / Unsplash.

03Quais defeitos aparecem nas descidas e nas conexões?

4. Corrosão galvânica nas conexões

Quando cobre, aço e alumínio se encontram numa conexão sem o conector adequado, eles formam um par galvânico, e a umidade faz o resto. O metal se degrada aos poucos até a conexão perder a continuidade. O engenheiro Jobson Modena, em artigo na O Setor Elétrico, recomenda conectores bimetálicos ou estanhados justamente para evitar esse processo. A oxidação às vezes é visível, mas em conexões enterradas ou embutidas ela só aparece na medição.

Peça metálica exposta à umidade, onde a corrosão começa. Foto: Woody Kelly / Unsplash.

5. Emenda mal feita ou conexão solta

Emendas feitas sem a ferramenta certa, parafusos frouxos e conexões enterradas que deveriam ser soldadas e não foram criam pontos de resistência elevada. No momento do raio, esses pontos podem centelhar ou romper. Modena aponta, em artigo de 2017, a execução em desacordo com o projeto entre as falhas que tornam o SPDA ineficaz.

Conectores e emendas, os pontos onde a continuidade costuma se perder. Foto: James Lee / Unsplash.

6. Descida rompida, solta ou furtada

Cabos de cobre nas fachadas atraem furto, e fixações se soltam com o tempo. Uma descida interrompida deixa a corrente sem o caminho previsto. Conteúdos voltados a condomínios, como o da BRCondos, citam cabos rompidos ou furtados, mastros tortos e conexões soltas entre os problemas mais vistos na vistoria.

Condutor de descida aparente na fachada, sujeito a furto e a fixação solta. Foto: Karminski-牙医 / Unsplash.

7. Descida próxima de partes metálicas sem ligação

Quando a descida passa perto de ferragens, esquadrias ou tubulações sem estar ligada a elas, e sem a distância de segurança calculada, a corrente pode saltar para essas partes. O engenheiro Normando Alves registrou, em série de casos publicada pela O Setor Elétrico, quinas de prédios destruídas e marcas de faísca em edifícios de Belo Horizonte causadas por esse tipo de falha. Reformas de fachada, troca de esquadrias e instalação de grades costumam criar o problema sem que ninguém perceba.

Descida na fachada, perto de esquadrias e de outras partes metálicas. Foto: Mattes, licença CC BY 2.0 de, via Wikimedia Commons.

04Quais defeitos aparecem no aterramento e na equipotencialização?

8. Hastes isoladas em vez de anel

Muitos sistemas antigos têm uma haste enterrada ao pé de cada descida, sem ligação entre elas. A norma pede um eletrodo em anel envolvendo a estrutura ou o aproveitamento das fundações, para que a corrente se distribua de forma uniforme no solo. Com hastes isoladas, a corrente se concentra em poucos pontos e a dispersão no solo fica pior, como descreve Modena no artigo citado acima.

Haste e conexão de aterramento ao pé da edificação. Foto: F1jmm, licença CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

9. Falta de equipotencialização

O barramento de equipotencialização, o BEP, é o ponto onde se ligam as partes metálicas da edificação e os sistemas que entram nela, como energia, telefonia e gás. Sem essa ligação, o raio cria diferença de potencial entre tubulações, estruturas e a instalação elétrica. O resultado pode ser choque, faísca entre partes metálicas ou danos em equipamentos.

Ligação equipotencial entre partes metálicas da edificação. Foto: Leo Miregalitheo, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

10. DPS ausente ou danificado

O SPDA protege a estrutura. Quem protege os equipamentos é o dispositivo de proteção contra surtos, o DPS, instalado nos quadros elétricos e tratado na Parte 4 da norma. O surto que queima equipamento costuma entrar pelos cabos de energia, de dados e de telefonia, e não pelo para-raios. Um DPS que já atuou pode estar inutilizado sem que ninguém saiba.

Quadro elétrico, onde ficam instalados os DPS. Foto: Stan Zurek, Editor-in-Chief of Encyclopedia Magnetica, E-Magnetica.pl, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

A conta de quem opera um condomínio ajuda a dimensionar esse defeito. Os três sistemas que costumam ficar ligados à rede o tempo todo numa portaria são a central de interfone, o gravador das câmeras e a placa do motor do portão. Em consulta ao comparador Zoom em 5 de outubro de 2026, a central de interfonia Intelbras Comunic 48 aparecia por R$ 974,70, o gravador Intelbras MHDX 1116 de 16 canais por R$ 2.337,00 e a placa de comando PPA Jet Flex por R$ 701,84. Somadas, só essas três peças dão R$ 4.013,54, sem câmeras, sem elevador e sem a mão de obra de reinstalação. É o custo de um surto mal resolvido numa portaria pequena, e ele não inclui os dias de portão travado e de câmeras desligadas.

05Quais defeitos só o ensaio de continuidade encontra?

Parte da lista acima se vê do chão ou da cobertura: captor radioativo, descida furtada, antena fora da proteção. A outra parte não aparece em nenhuma inspeção visual. A conexão corroída dentro da caixa, a emenda enterrada sem solda e a armadura do pilar que não está ligada à descida só são encontradas com medição.

O instrumento certo para isso é o miliohmímetro ou micro-ohmímetro de quatro fios, que injeta corrente no trecho e mede a resistência sem somar a resistência dos próprios cabos de ensaio. A Termotécnica explica por que o terrômetro, usado para medir a resistência de aterramento, não serve para esse ensaio. Com a NBR 5419:2026, a verificação de eficácia do sistema passou a se apoiar na continuidade elétrica, e não apenas na resistência de terra, segundo análises publicadas pela Token Engenharia. Um laudo feito só com terrômetro deixa de fora justamente os defeitos que mais se escondem.

Há ainda o defeito que não está no metal, e sim no papel. Projetos com cálculo errado, material especificado de forma incorreta ou laudos sem análise de risco também comprometem o sistema, como lembra Modena. Um SPDA bem executado sobre um projeto errado continua protegendo menos do que deveria.

06Como o síndico descobre se o SPDA do condomínio tem defeito?

O primeiro passo é saber a data do último laudo. Pela NBR 5419-3:2026, a inspeção completa é anual para estruturas com área classificada, explosivos, corrosão severa ou serviço essencial, e a cada três anos para as demais, segundo a Token Engenharia. Para a maioria dos condomínios residenciais, vale o prazo de três anos, com inspeção visual entre um laudo e outro. A norma também pede inspeção depois de raio que atinja o prédio, depois de reforma que mexa na cobertura ou na fachada e quando um DPS de classe I atuar, como resume a Termotécnica.

O segundo passo é ler o laudo existente com atenção. Um laudo útil traz o ensaio de continuidade de todas as descidas, a medição de aterramento, as fotos de cada não conformidade com sua localização e uma conclusão clara, conforme ou não conforme. Laudo de uma página, sem medição de continuidade ou sem ART, não prova nada sobre o estado do sistema.

O terceiro é lembrar que a responsabilidade é do condomínio. No Distrito Federal, a NT-01/2016 do Corpo de Bombeiros define, pela altura e pela área, quais edificações precisam de SPDA. E a fiscalização chega ao tribunal: em maio de 2026, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal manteve a ordem para que um condomínio implantasse um cronograma permanente de manutenção do SPDA, depois de notificação do CBMDF, no processo 0702369-38.2025.8.07.0014.

07Os números deste artigo

  • 101 acidentes e 19 mortes por descarga atmosférica no Brasil em 2025. Fonte: anuário 2026 da Abracopel.
  • Cerca de 75 mil para-raios radioativos fabricados entre 1970 e 1989. Fonte: IPEN e INAC 2021, com estimativa da CNEN.
  • 1989, ano em que a CNEN suspendeu o uso de material radioativo em para-raios. Fonte: Resolução nº 4 da CNEN.
  • 1 ou 3 anos entre inspeções completas, conforme o risco da estrutura. Fonte: NBR 5419-3:2026, via Token Engenharia.
  • R$ 4.013,54 para repor central de interfone, gravador de câmeras e placa do portão, só as peças. Fonte: comparador Zoom, consulta em 05/10/2026.

Perguntas frequentes

Como saber se o para-raios do prédio é radioativo?

Prédios construídos antes de 1990 merecem atenção, porque os captores radioativos foram fabricados entre 1970 e 1989. A identificação deve ser feita por profissional. A confirmação e a retirada devem ser feitas por empresa habilitada, com entrega do material à CNEN pelo serviço do CDTN.

Se o captor está inteiro, o SPDA está funcionando?

Não necessariamente. O captor é só o primeiro elo. Descidas, conexões, aterramento e equipotencialização precisam estar íntegros e contínuos, e parte desses defeitos só aparece com o ensaio de continuidade feito com miliohmímetro de quatro fios.

O para-raios protege o interfone e as câmeras do condomínio?

Sozinho, não. O surto que queima equipamento costuma entrar pelos cabos de energia, de dados e de telefonia. A proteção desses sistemas depende de DPS instalados e coordenados nos quadros elétricos, que também devem ser verificados no laudo.

De quanto em quanto tempo o condomínio precisa inspecionar o SPDA?

Pela NBR 5419:2026, a inspeção completa é feita a cada três anos para a maioria das estruturas e todo ano para estruturas de risco especial. Também é preciso inspecionar depois de um raio no prédio, de reformas na cobertura ou na fachada e da atuação de um DPS de classe I.

Instalar antena ou ar-condicionado no telhado afeta o SPDA?

Pode afetar. Equipamentos instalados depois do projeto podem ficar fora da zona protegida pela captação e se tornar o ponto de impacto do raio. Sempre que algo novo for para a cobertura, vale pedir a verificação da cobertura de proteção.

Laudo feito só com terrômetro vale?

Ele mede a resistência de aterramento, mas não mostra se as descidas e conexões estão contínuas. Com a NBR 5419:2026, a eficácia do sistema passou a ser verificada pela continuidade elétrica. Um laudo sem esse ensaio deixa de fora os defeitos mais difíceis de ver.

Fontes

  1. Abracopel, via Tribuna Hoje. Brasil registra 2.322 acidentes elétricos e 725 mortes em 2025, 20/02/2026. tribunahoje.com
  2. O Setor Elétrico. Revisão da NBR 5419 é publicada pela ABNT, 10/03/2026. osetoreletrico.com.br
  3. CNEN. Resolução CNEN nº 4, de 19 de abril de 1989. gov.br/cnen
  4. Miranda e Vicente, IPEN. Recolhimento de para-raios radioativos. repositorio.ipen.br
  5. Valduga e Vicente. INAC 2021, resumo R0236. inac2021.aben.com.br
  6. CDTN. Recebimento de para-raios radioativos, atualizado em 27/12/2023. gov.br/cdtn
  7. O Setor Elétrico. Entrevista com Hélio Sueta sobre captores de emissão antecipada. osetoreletrico.com.br
  8. Token Engenharia. Laudo de SPDA. tokenengenharia.com.br
  9. Jobson Modena, O Setor Elétrico. Dicas para um SPDA saudável, jun/2012. osetoreletrico.com.br
  10. Jobson Modena, O Setor Elétrico, 12/09/2017. osetoreletrico.com.br
  11. BRCondos. SPDA e a NBR 5419 no condomínio, 17/07/2026. blog.brcondos.com.br
  12. Normando Alves, O Setor Elétrico, edição 158, Espaço 5419. osetoreletrico.com.br
  13. Termotécnica. ABNT NBR 5419:2026, o que muda, 18/03/2026. tel.com.br
  14. Termotécnica. Ensaio de continuidade elétrica, 19/03/2021. tel.com.br
  15. Token Engenharia. NBR 5419 atualizada em 2026, 21/05/2026. tokenengenharia.com.br
  16. Zoom, comparador de preços. Central Comunic 48, DVR MHDX 1116 e placa PPA Jet Flex, consulta em 05/10/2026. zoom.com.br
  17. TJDFT. Processo 0702369-38.2025.8.07.0014, 27/05/2026. CBMDF, NT-01/2016. cbm.df.gov.br
  18. Créditos das fotos. Capa, Michael D / Unsplash. Captor radioativo, Kakoula10, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Captor ionizante, Pavel Tomashev, CC0, via Wikimedia Commons. Equipamentos no telhado, Safwan C K / Unsplash. Corrosão, Woody Kelly / Unsplash. Emendas, James Lee / Unsplash. Descida aparente, Karminski-牙医 / Unsplash. Descida na fachada, Mattes, licença CC BY 2.0 de, via Wikimedia Commons. Aterramento, F1jmm, licença CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons. Equipotencialização, Leo Miregalitheo, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. DPS, Stan Zurek, Editor-in-Chief of Encyclopedia Magnetica, E-Magnetica.pl, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Mateus Melo

Escrito por

Mateus Melo

Sócio-Diretor de Engenharia

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Publicado em 05 de outubro de 2026

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