Por que inspecionar o SPDA antes da temporada de raios?

Por que inspecionar o SPDA antes da temporada de raios?

Metade dos raios do DF em 2024 caiu em novembro e dezembro. O que a inspeção precisa medir, com que frequência fazer e por que agir antes da chuva.

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Praticamente metade dos raios que caíram no Distrito Federal em 2024 veio em apenas dois meses, novembro e dezembro. Pela contagem do ELAT/INPE, foram 96.365 descargas no ano, e 48.461 delas tinham caído até o fim de outubro. Para quem administra uma escola, um hospital ou um shopping, esse número define o calendário: o para-raios precisa estar conferido antes de a temporada começar, e não depois da primeira tempestade.

O sistema de proteção contra descargas atmosféricas, o SPDA, não dá nenhum aviso de defeito. Não aparece em relatório mensal, não dispara alarme e não gera indicador. Uma descida rompida, uma conexão corroída ou um captor que ficou abaixo de uma antena instalada depois do projeto não mudam nada na rotina do prédio. O problema só se revela no dia do raio, quando já não há o que fazer. Este artigo explica o que a inspeção precisa verificar, com que frequência ela deve acontecer e por que a estação seca é a janela certa para fazer.

01O que o SPDA faz, e o que ele não faz?

O SPDA é o conjunto que oferece à corrente do raio um caminho controlado até o solo, sem que ela atravesse a estrutura. Ele tem quatro partes. A captação, formada pelos captores e pela malha na cobertura, recebe a descarga. As descidas são os condutores que levam essa corrente pela fachada ou pela estrutura até o chão. O aterramento dispersa a corrente no solo. E a equipotencialização liga as massas metálicas do prédio, como tubulações, estruturas e caixas d'água, para que não surja diferença de potencial perigosa entre elas.

O SPDA não atrai nem impede o raio. Ele reduz o risco de incêndio, de dano à estrutura e de choque para quem está dentro do prédio. O que ele não faz, sozinho, é proteger equipamentos eletrônicos contra o surto que entra pelos cabos de energia, de dados e de telefonia. Essa é a função dos dispositivos de proteção contra surtos, os DPS, tratados na Parte 4 da norma. Para um hospital com equipamentos de imagem e monitores, um shopping com escadas rolantes e climatização central ou uma escola com laboratório de informática, essa diferença importa: o prédio pode estar protegido e o equipamento, não.

A referência técnica é a ABNT NBR 5419, cuja nova edição foi publicada em 10 de março de 2026. As quatro partes foram revisadas juntas, alinhadas à norma internacional IEC 62305:2024, e a edição de 2015 foi cancelada.

NEXO ENGENHARIA · Engenharia em campo
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02O que os números mostram sobre raios no DF e em Goiás?

O Brasil está entre os três países com maior incidência de raios do planeta, ao lado do Congo e dos Estados Unidos, segundo o INPE, e a posição de cada um varia de ano para ano. No Distrito Federal, o ELAT/INPE contou 96.365 raios em 2024, contra 77.211 em 2023, de acordo com levantamento publicado pelo Correio Braziliense.

O efeito na rede elétrica aparece nos números das distribuidoras. A Neoenergia Brasília informou que mais de 114 mil consumidores ficaram sem energia por causa de raios no primeiro trimestre de 2026, 23,6 mil a mais que no mesmo período de 2025, com mais de 13 mil raios tocando o solo no trimestre. Em Goiás, a Equatorial registrou, com dados da Climatempo, mais de 1,05 milhão de raios entre janeiro e abril de 2026, segundo o Jornal Opção. A mesma distribuidora contou mais de 60 mil interrupções de energia causadas por raios de janeiro a setembro de 2025, cerca de 20% das interrupções do período.

A nova norma trouxe um dado que interessa diretamente a quem tem prédio em Brasília. O mapa de densidade de raios deixou de ser referência informativa e passou a ser normativo, com um valor oficial para cada município brasileiro, calculado com dados do INPE e da UFMT. Para Brasília, o valor é de 16 raios por quilômetro quadrado por ano, segundo a tabela da NBR 5419-2:2026. É esse número que entra na análise de risco de todo projeto novo e de toda reforma.

Vale uma ressalva. Esses dados medem o raio e o efeito dele na rede da concessionária. Não existe estatística pública sobre falha de SPDA em edificações, e é justamente por isso que a condição de cada sistema só é conhecida quando alguém sobe na cobertura e mede.

03Por que a inspeção precisa acontecer antes de novembro?

O regime de chuvas de Brasília é concentrado. Pela normal climatológica 1991 a 2020 do INMET, os meses de junho a setembro somam apenas 4% da chuva do ano, enquanto novembro e dezembro, sozinhos, respondem por 33,4%. De outubro a março cai 84% da precipitação anual.

Isso pesa na inspeção porque ela exige trabalho na cobertura, nas fachadas e nas caixas de aterramento. A NR-35, que regula o trabalho em altura, manda considerar as condições meteorológicas na análise de risco de cada atividade, e chuva e tempestade suspendem o serviço. Na temporada, a agenda de campo encolhe e passa a disputar espaço com os atendimentos depois de cada evento.

Há um segundo motivo, e ele costuma ser o mais caro. A inspeção serve para encontrar defeito, e defeito encontrado precisa ser corrigido. Refazer uma descida, trocar conectores corroídos ou ampliar o aterramento envolve obra na cobertura, escavação e compra de material. Inspecionar em setembro ou outubro deixa tempo para corrigir antes do pico. Inspecionar em dezembro significa descobrir o problema com a temporada em andamento e esperar a próxima seca para resolver.

E quem deixa para depois acaba inspecionando de qualquer forma, só que em condição pior. A NBR 5419 pede verificação do sistema quando há suspeita de impacto de raio na estrutura ou quando o DPS de entrada atua, conforme texto da Termotécnica assinado por um engenheiro que integrou a comissão revisora.

NEXO ENGENHARIA · Engenharia em campo
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04O que uma inspeção séria precisa verificar?

O escopo varia com o porte e o tipo de estrutura, mas uma inspeção completa de SPDA cobre estes pontos:

  • Captação: captores e malha íntegros, bem fixados e acima de tudo o que foi instalado na cobertura depois do projeto, como antenas, condensadoras e placas solares. Captor abaixo de antena é um dos itens que reprovam a vistoria do Corpo de Bombeiros de Goiás, pela NT-40/2019.
  • Descidas: condutores contínuos, sem emendas fora de conector apropriado, fixados à estrutura e com proteção mecânica na parte baixa, onde circulam pessoas. A mesma NT-40 cobra essa proteção até 2,5 metros do piso e reprova sistema com menos de duas descidas.
  • Conexões e caixas de inspeção: corrosão, conectores frouxos e caixas soterradas, lacradas ou inacessíveis, que impedem a medição.
  • Continuidade elétrica: é o ensaio que mostra se a corrente do raio vai encontrar um caminho íntegro até o solo. A norma descreve o ensaio com miliohmímetro de quatro fios, com corrente de 1 a 10 A em frequência diferente de 60 Hz, e multímetro comum não serve para isso.
  • Aterramento: estado físico dos eletrodos e medição da resistência de aterramento, que os Corpos de Bombeiros do DF e de Goiás pedem no laudo. A norma não trata esse valor, sozinho, como prova de eficácia do sistema, e o relator do grupo que revisou a norma afirmou que nunca houve exigência de um valor fixo de resistência de terra.
  • Equipotencialização e DPS: ligação das massas metálicas ao barramento de equipotencialização e estado dos DPS nos quadros de entrada.
  • Documentação: laudo assinado por engenheiro com anotação de responsabilidade técnica, valores medidos em cada descida, instrumento identificado e calibrado, parecer conclusivo de conforme ou não conforme, lista de não conformidades e plano de inspeção com a data da próxima.

O item da continuidade é o que mais separa um laudo de outro. Um único número de resistência de terra não diz se uma descida está rompida no meio da fachada. A revisão de 2026 colocou o ensaio de continuidade no centro da verificação, segundo a leitura de especialistas que acompanharam a mudança.

05Com que frequência o SPDA deve ser inspecionado?

A NBR 5419-3:2026 separa as estruturas em dois grupos, conforme a Token Engenharia. A inspeção completa é anual em estruturas com áreas classificadas, com risco de atmosfera explosiva, com explosivos ou materiais tóxicos, com atmosfera corrosiva severa e em estruturas que prestam serviços essenciais. Para as demais, o intervalo é de três anos. A edição nova também deixou de amarrar o prazo ao nível de proteção do sistema.

Na prática, escolas ficam em geral no prazo de três anos. Shoppings também, a não ser que tenham área classificada no terreno. Hospitais são o caso que exige atenção: as fontes especializadas divergem sobre enquadrar ou não o hospital como serviço essencial. A leitura prudente é tratar o hospital como candidato ao prazo anual e deixar a decisão registrada no laudo pelo responsável técnico.

Independentemente do prazo, a inspeção é imediata depois de suspeita de impacto de raio, de atuação do DPS de entrada, de reforma, de ampliação ou de mudança de uso da edificação.

Os Corpos de Bombeiros acrescentam a sua própria régua. Em Goiás, o CERCON vale por até um ano, e a renovação exige documento de responsabilidade técnica de inspeção do SPDA feita há no máximo três anos, pela NT-01/2026 do CBMGO. No Distrito Federal, a vistoria de licenciamento do CBMDF para estabelecimentos de alto risco lista entre os documentos o Laudo de Aterramento e de Continuidade Elétrica do SPDA, com anotação de responsabilidade técnica.

06Quanto custa descobrir o problema depois do raio?

A conta tem três camadas, e a primeira é a mais visível. Em dezembro de 2023, raios queimaram equipamentos de uma propriedade rural em Sorriso, no Mato Grosso, com prejuízo de R$ 101 mil. A seguradora negou a cobertura com base numa cláusula que excluía danos de tempestade com descargas elétricas, e o produtor só recebeu depois que a Primeira Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso fixou a indenização em R$ 81.023,93, já descontada a franquia, segundo o Repórter MT. O caso não é de escola, hospital ou shopping, mas mostra duas coisas que valem para qualquer operação: um único evento pode custar seis dígitos, e a indenização pode depender de uma disputa que leva anos.

A segunda camada é o seguro. Desde dezembro de 2025 está em vigor a Lei 15.040/2024, que rege o contrato de seguro e prevê a perda da garantia para quem omite de forma dolosa informação relevante no questionário de risco. Responder que o prédio tem SPDA inspecionado sem ter laudo em dia é o tipo de resposta que vira discussão depois do sinistro.

A terceira é a fiscalização, que também chega ao tribunal. Em maio de 2026, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal manteve a ordem para que um condomínio implantasse um cronograma permanente de manutenção do SPDA, depois de notificação do CBMDF, no processo 0702369-38.2025.8.07.0014.

Os números que sustentam este artigo, com a fonte de cada um:

  • 96.365 raios. Descargas registradas no DF em 2024, sendo 48.461 de janeiro a outubro. Fonte: ELAT/INPE, via Correio Braziliense.
  • 114 mil consumidores. Sem energia por causa de raios no DF no primeiro trimestre de 2026. Fonte: Neoenergia Brasília.
  • 1,05 milhão de raios. Registrados em Goiás de janeiro a abril de 2026. Fonte: Equatorial e Climatempo.
  • 60 mil interrupções. Causadas por raios em Goiás de janeiro a setembro de 2025. Fonte: Equatorial.
  • 16 raios por km² por ano. Densidade de raios de Brasília na tabela normativa da NBR 5419-2:2026. Fonte: Token Engenharia.
  • 4% contra 33,4%. Parcela da chuva anual de Brasília de junho a setembro, contra novembro e dezembro. Fonte: INMET, normal 1991 a **2020.
  • 1 ou 3 anos.** Intervalo da inspeção completa, conforme o tipo de estrutura. Fonte: NBR 5419-3:2026, via Token Engenharia.
  • R$ 101 mil. Prejuízo com equipamentos queimados por raio numa propriedade rural em Mato Grosso. Fonte: TJMT, via Repórter MT.
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Perguntas frequentes

O SPDA impede que o raio caia no prédio?

Não. Nenhum sistema impede a descarga. O SPDA oferece um caminho controlado para a corrente até o solo, reduzindo o risco de incêndio, de dano estrutural e de choque para quem está dentro da edificação. Por isso ele precisa estar íntegro em toda a extensão, da captação ao aterramento.

O para-raios protege computadores e equipamentos médicos?

Sozinho, não. O surto que queima equipamento costuma entrar pelos cabos de energia, de dados e de telefonia. A proteção desses sistemas depende de DPS coordenados nos quadros elétricos, tema da Parte 4 da NBR 5419. O laudo de SPDA deve registrar o estado desses dispositivos.

Toda escola, hospital e shopping precisa ter SPDA?

No Distrito Federal, a NT-01/2016 do CBMDF exige SPDA em escolas e edificações comerciais com mais de 9 metros de altura ou mais de 1.200 m² de área, e em hospitais com mais de 9 metros ou mais de 750 m². Em Goiás, o corte geral do CBMGO é de 750 m² ou 12 metros, com variações por tipo de ocupação. Fora desses casos, quem decide é a análise de risco da NBR 5419-2.

O que fazer depois que um raio atinge o prédio?

Pedir a inspeção do sistema sem esperar o prazo periódico. A norma prevê verificação depois de suspeita de impacto na estrutura e depois da atuação do DPS de entrada. Também vale registrar data, hora e danos observados, porque essa informação é útil tanto para o laudo quanto para um eventual aviso de sinistro.

O laudo feito pela edição de 2015 ainda vale?

O sistema instalado conforme a edição de 2015 não precisa ser refeito só por causa da norma nova. Reforma e ampliação seguem a edição de 2026, e a próxima inspeção periódica já deve seguir os critérios atuais. Um laudo que traz apenas a resistência de terra, sem ensaio de continuidade, não mostra se o caminho da corrente está íntegro.

Quem pode fazer a inspeção de SPDA?

O laudo precisa ser assinado por engenheiro habilitado, com anotação de responsabilidade técnica, que é o documento aceito pelos Corpos de Bombeiros. A equipe que sobe na cobertura precisa de treinamento em trabalho em altura pela NR-35, análise de risco e supervisão, e os instrumentos de medição precisam de certificado de calibração válido.

Fontes

  1. ELAT/INPE, via Correio Braziliense. DF registrou 96.365 raios em 2024 e 77.211 em 2023, 28/03/2025. correiobraziliense.com.br
  2. ELAT/INPE, via Correio Braziliense. DF registrou 48.461 raios de janeiro a outubro de 2024, 16/11/2024. correiobraziliense.com.br
  3. INPE. Brasil registra aumento de raios em todo o território nacional, 26/03/2026. gov.br/inpe
  4. Neoenergia Brasília. Raios disparam no DF e deixam mais de 114 mil consumidores sem energia no início de 2026, 23/04/2026. neoenergia.com
  5. Equatorial e Climatempo, via Jornal Opção. Mais de 1 milhão de raios atingem Goiás em 2026, 14/04/2026. jornalopcao.com.br
  6. Equatorial, via O Hoje. Interrupções de energia causadas por raios em Goiás, 14/11/2025. ohoje.com
  7. INMET. Normais climatológicas do Brasil 1991 a 2020, precipitação acumulada mensal, estação Brasília. portal.inmet.gov.br
  8. O Setor Elétrico. Revisão da NBR 5419 é publicada pela ABNT, 10/03/2026. osetoreletrico.com.br
  9. O Setor Elétrico. A nova NBR 5419 chegou, 22/04/2026. osetoreletrico.com.br
  10. Termotécnica. ABNT NBR 5419:2026, o que muda, 18/03/2026. tel.com.br
  11. Token Engenharia. NBR 5419 atualizada em 2026, 21/05/2026, e Incidência de raios no Brasil, 17/06/2026. tokenengenharia.com.br
  12. Eletroproj. Miliohmímetro no ensaio de continuidade do SPDA, 2026. eletroproj.com.br
  13. CBMGO. NT-01/2026 e NT-40/2019. CBMDF. NT-01/2016 e carta de serviços da vistoria. bombeiros.go.gov.br e cbm.df.gov.br
  14. Repórter MT. Seguradora terá que pagar R$ 81 mil a produtor de MT por equipamentos queimados por raios, 25/04/2026. reportermt.com
  15. Presidência da República. Lei 15.040, de 9 de dezembro de 2024, contrato de seguro. planalto.gov.br
Mateus Melo

Escrito por

Mateus Melo

Sócio-Diretor de Engenharia

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Publicado em 25 de setembro de 2026

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